Tanta gente escreve e fala sobre propósito! Nunca entendi direito o que é – às vezes acho que tenho, outras me esqueço dele.

Recentemente a palavra começou a aparecer mais e mais vezes nos livros que eu lia, nas entrevistas que eu assistia, em todo lugar. Comecei a anotar o que eu aprendia e as minhas reflexões, que hoje compartilho aqui com vocês, como uma colcha de retalhos: com cores que nem sempre combinam entre si, e por isso é bela.

Começo com Marcelo Cardoso, do Instituto Integral Brasil. Ele mencionou em uma entrevista para a CBN que o Hospital John Hopkins conduziu uma pesquisa que provou algo muito interessante: as pessoas que têm propósito na vida vivem mais. Ok, isso a gente já imaginava. Mas o que foi surpreendente pra mim é  que estas pessoas vivem mais do que aquelas que não têm propósito e também vivem mais do que aquelas que cuidam bem da própria saúde. Ou seja, se cuidamos da nossa saúde e ainda temos propósito, ganhamos dois propulsores de longevidade.

Propósito é sobre as estradas que escolhemos percorrer. Se escolhemos as asfaltadas e planas, vamos andar mais rápido, mas não aprenderemos muita coisa, já que o aprendizado está nos desafios (sejam eles vencidos ou não). Se escolhemos as estradas muito esburacadas, podemos ficar tão concentrados em não cair nos buracos, que perdemos a paisagem. Que estradas estamos escolhendo? Quase tudo é escolha. E em cada escolha há várias renúncias.

Propósito é também sobre o jeito que estamos percorrendo estas estradas. Pagando algum preço alto demais? Abrindo mão de algo valioso demais? Quem tem propósito não negligencia o que mais importa. Renuncia algumas coisas, mas nunca o que o faz realmente feliz.

Propósito não é sobre a velocidade do percurso – isso se chama prazo. Importante para capa de revista: “Como Ser Milionário Até os 25 Anos”. Vamos combinar aqui que somos nós que imprimimos o ritmo. Quer correr, corre. Quer andar, anda. Quer parar, para. Mas nada disso é propósito.

Propósito não é sobre sua chegada – isso é meta. Eu acho bom ter metas. Escolhidas por nós, com base no que nos faz felizes, e no que faz feliz quem nós amamos. Não aquelas banais impostas pela sociedade. Querer conhecer Machu Picchu, por exemplo, pode ser uma meta sua. Estudar um novo idioma também. De que forma você vai ganhar dinheiro para realizar essa meta, e do que você não quer abrir mão para isso fazem parte do seu propósito.

Sergio Chaia define propósito como “a forma pela qual você quer ser lembrado”.Um jeito de construir a própria biografia com um propósito pode ser possível se primeiro conhecermos nossos próprios talentos. O que eu faço muito bem? Com que dons eu nasci? Não importa quais são estes dons: cozinhar, organizar coisas, orientar carreiras, dar palestra, costurar, ensinar um idioma. Depois de definidos, podemos pensar em como colocar estes dons a serviço de pessoas que precisam. Não uma vez na vida, mas como parte da nossa rotina, pois tem de virar um hábito.

Também descobri que propósito não é sobre ser reconhecido pelos outros como alguém “Do Bem” – isso é ego. A parte ruim é que mesmo que façamos o bem, se usarmos a boa ação para nos promovermos, para sermos aclamados como generosos, deixa de ser um propósito. Torna-se só mais um item para potencializar nossa vaidade. Posso ser apreciado pelas coisas que faço. Mas se meu objetivo é a apreciação do outro, preciso fazer sem alarde da próxima vez.

A personagem Ifemelu, do ótimo livro Americanah (de Chimamanda Adichie), diz que tudo isso tem a ver com o que temos consumido e sobre o que tem nos consumido. Um bom exercício é listar o que mais consumimos. Comida saudável? Séries no Netflix? Maquiagem? Redes Sociais? Cerveja? Roupas? Depois, é pensarmos sobre quais desses itens têm nos consumido: quais gostamos tanto que nos deixamos dominar? O que consumimos para nos sentirmos inteiros, felizes e íntegros? E o que consumimos para fugir ou esquecer de algo que não suportamos mais?

E, para finalizar a colcha de retalhos, descobri Philippe Petit, um equilibrista francês que ficou famoso por sua caminhada entre as Torres Gêmeas em 1974. Ele aprendeu com seu treinador que a maioria dos equilibristas caem e morrem nos últimos três passos, justamente na hora em que acham que já “chegaram lá”.

Quanto mais pesquiso, mais acho profundo o tema. Sigo aprendendo. Parafraseando Os Varandistas, ter  propósito deve ser um jeito bom de se deixar viver.

 

Artigo escrito por Rosangela Souza e publicado no portal MundoRH. Editado para o blog da Companhia de Idiomas.

Rosangela Souza (ou Rose Souza) é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas. Graduada em Letras/Tradução/Interpretação pela Unibero, Especialista em Gestão Empresarial, MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP, além de cursos livres de Business English nos EUA. Quando morava em São Paulo, foi professora na Pós Graduação ADM da FGV. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista dos portais Catho, RH.com, MundoRH, AboutMe e Exame.com. Desde 2016, escolheu administrar a Companhia de Idiomas à distância e morar em Canela/RS, aquela cidadezinha ao lado de Gramado =) . Quer falar com ela? rose@companhiadeidiomas.com.br ou pelo Skype rose.f.souza

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