Em poucos meses, acompanhamos as Olimpíadas, Lava-Jato, saída da Dilma, reforma fiscal, saída do Eduardo Cunha, 11% de taxa de desemprego, mais Lava-Jato, terrorismo, queda do dólar… E muitos de nós estamos oscilando entre depressão e euforia diariamente.

Nas empresas e em nossa vida pessoal, é a mesma coisa: medos e esperanças. Medo de ser demitido, perder aquele cliente importante, ser substituído pelo garoto que fala inglês fluentemente, não vender nada neste mês. Esperança de tudo melhorar agora, depois das Olimpíadas, e depois de organizarem a bagunça política e econômica no Brasil.

Ouvimos que devemos nos preparar para o pior, mas sempre esperar pelo melhor.  Há pessoas investindo, mesmo que só um pouquinho, em algo que as torne profissionais mais qualificados. Ajuda a diminuir os medos.

Conheço alguns – admiráveis – que encontraram outra forma de apaziguar diariamente as emoções extremas, exercitando o olhar para encontrar a "flor de lótus no meio da lama". Eles se perguntam constantemente: "O que tem de bom nesta situação ruim?" 
"O que estou aprendendo?"  "Como evito isso no futuro?"  "Será que fui eu que causei?"   E na hora do sucesso, quando "nos sentimos o máximo", eles exercitam a humildade e a compaixão. Parece aula de catecismo, mas acho que muitos de nós – eu, inclusive – estamos no nível básico das duas lições.

Quanto mais vivemos, mais experientes somos, mais nos especializamos em encontrar as gotinhas de lama no meio do lindo jardim. Desenvolvemos aquele olhar treinado para encontrar erros e inadequações, e isso pode nos cegar para o belo, intensificar nosso estresse e infelicidade, e, comprovadamente, degenerar nossa saúde física e mental.

Continuo sócia e diretora da Companhia de Idiomas, trabalhando em tempo integral para a empresa que fundei e que amo, mas há quatro meses estou morando em Canela (aquela cidadezinha bonita ao lado de Gramado, na Serra Gaúcha), depois de nascer e viver por 47 anos na cidade de São Paulo. Essa mudança me fez notar minha cegueira, entre tantas coisas que uma mudança causa. Um lugar lindo, uma natureza maravilhosa – e eu percebo que de vez em quando caminho olhando para baixo, revoltadinha com um lixo encontrado aqui e ali, na calçada. Estou ainda aprendendo, humildemente, a recolher o que posso e – o mais difícil – a não julgar quem jogou. Não aprendi ainda, mas gosto de tentar.  Aprender a levantar a cabeça e olhar o belo que me cerca, me importando menos com o que me incomoda.  E a não querer necessariamente mostrar nas redes sociais o que vivo. O velho exercício de só ver, viver e sentir mesmo.

Normalmente vejo que priorizamos o circunstancial, e negligenciamos o permanente. O lixo é circunstancial e pode ser retirado com um gesto rápido. A natureza pode ser permanente e deve ser admirada e internalizada. O (des)emprego é circunstancial,  uma vida produtiva é mais permanente. Uma rede social é circunstancial e vai sendo substituída por outra, a capacidade de olhar e sentir deve ser permanente.

Para isso, precisamos todos de um pouco de silêncio, para descobrirmos a terceira margem do rio, brilhantemente descrita por Guimarães Rosa. Só no silêncio, tão raro, conseguimos refletir sobre nossas ações, reações, omissões e histerias diante das nossas vidas incertas.


 

Escrito por Rosangela Souza. Publicado em 29 de agosto de 2016 na Revista RH.COM. Editado por Rosangela Souza para o site da Companhia de Idiomas – Artigos de Gestão.

 

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto. Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA. Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP.  Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso, RH.com e Exame.com.   Professora de Técnicas de Comunicação, Gestão de Pessoas e Estratégia na pós graduação ADM da Fundação Getulio Vargas/FGV.

 

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