“Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece: como não fui eu que fiz?” Nessa semana, senti o mesmo que o Milton, só que não com uma música, mas com um artigo. Publicado na edição 86 da revista Wide, o texto foi escrito pelo ótimo René de Paula Jr, profissional de internet. Ele é o criador do www.usina.com/rodaeavisa – site cheio de videocasts com ideias dele, bom para quem gosta de refletir sobre a internet, cultura, tecnologia, social media etc, e a influência disso tudo no comportamento das pessoas ou nas escolhas que estamos fazendo no dia a dia.

[CORTAR]A gente lê tanta coisa e tão pouco nos intriga hoje em dia. De repente, no meio da montanha de informação a que temos acesso, algo chama a atenção – um artigo simples, sobre um tema corriqueiro, mas que expressa um pouco do que sentimos, daquilo que precisamos aprender logo, e daquilo que já nascemos sabendo, de alguma maneira.

Rosangela de Fátima Souza (Rose) é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas, tradutora-intérprete, especialista em Gestão Empresarial, MBA pela Fundação Getulio Vargas, com curso de Docência de Nível Superior da FGV. Desenvolveu projetos na FGV sobre Franqueadoras no segmento de idiomas in company e sobre Indicadores de Desempenho atrelados à remuneração variável em Pequenas Empresas.

Espere um momento… pera! Não olhe para o lado agora, mas você… acabou de parar a gincana do dia a dia para prestar atenção em alguma coisa. Você parou para ler e, enquanto lê, parou por alguns instantes para pensar, para reler e mastigar melhor o que está escrito. Algo que eu disse deve tê-lo deixado intrigado sobre o que viria depois, e você se pôs a imaginar onde essa história ia dar, e nessa brincadeira toda quanto tempo se passou?

Quando você saiu da correria para ler este artigo, fez algo supervalioso: retomou as rédeas do tempo. Mais do que isso, você criou um tempo seu, que você estica e desdobra e multiplica e pausa e acelera do seu jeito. É como se você saísse de uma montanha-russa alucinada (daquelas em que você não é você, mas sim um problema de física) para montar uma moto legal e escolher uma trilha que você sempre sonhou. Ler é assim.

Eu tenho uma tese: quer emburrecer alguém? Bote o infeliz pra correr. Correr sem parar, sem parar para pensar. Dê um monte de tarefas sem pé nem cabeça para o cara executar voando sem perguntar o porquê.
Claro que tem quem goste, claro que isso vicia, mas quem gosta de adrenalina é músculo, e o que você tem na cabeça não são músculos. Dito de outra maneira: se você precisa correr pra sentir o coração bater mais forte, é sinal de que falta amar. Ou ainda se você corre sem pensar, deve ter alguém pensando por você (e sem pensar nem um minuto em você).

Eu nasci num ano duro, 1964. Daí em diante sumiram as disciplinas humanísticas nas escolas. Na televisão, no rádio e nos jornais calou-se o pensamento, e para a galera parar de pensar, construíram estádios gigantes de futebol e encheram a televisão de novelinhas. Resultado: aquele Brasil genial da bossa-nova, da tropicália, da arquitetura e do cinema virou fumaça, virou lembrança. Só agora estamos nos recuperando do emburrecimento massivo e parando para pensar no que realmente queremos ser quando crescermos.
Pare um pouco para pensar: quais são os caras que realmente o inspiram? Tenho certeza que são figuras que, em algum momento, pararam para ver se estavam no caminho certo e acabaram criando seus próprios caminhos. Lembre-se : inércia não é só estar parado. Um trem a 100 por hora tem uma inércia danada, e a vida que todos levamos é cheia de inércias assim: você vai no embalo facinho, facinho. Quando perceber, chegou na estação final sem nem saber o que havia de legal no caminho.

Ok, ok, já provoquei bastante o lado existencial do corre-corre. Paremos um pouco pra pensar no aspecto profissional da correria. A questão é fascinante e talvez explique o por quê, mesmo correndo tanto, não saiamos do lugar.

Eu conheço um monte de que gente que se orgulha de correr feito louco. Já vi equipes inteiras que só ficam felizes quando estão numa gincana maluca. Conheci de perto empresas inteiras que fervilhavam de atividade insana e que, noves-fora, não iam a lugar algum. O mais intrigante disso tudo: todos felizes, e mais do que isso, felizes por ralarem mais que os outros.

Eu tenho outra tese: se a regra é a correria é porque ninguém parou para pensar ou porque não querem que ninguém perceba que ninguém pensou. Ponto.

Vou dar um exemplo vivido: ao final de um projeto que rolou aos trancos e barrancos eu propus que se fizesse um post-mortem (que, para quem não conhece é uma prática comum entre gringos de analisar o que foi bom e o que não foi para não se repetirem mais erros). A reação, brasileiríssima, foi “Post mortem?? Como assim??? Bola pra frente! No final deu tudo certo. Ninguém percebeu as burradas. Você está querendo me fritar?”

“Bola pra frente”. “Run, Forest, run”. “Não faça marola”. “Rema e cala a boca”. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo.” “Corra, Lola, corra”. Se você ouvir “sabedorias” assim, corra, mas corra para um lugar onde se pensa.

René de Paula Jr é especialista em projetos interativos, trabalha com internet desde 1996. Já trabalhou em grandes agências como AlmapBBDO, AgênciaClick, Wunderman, e em empresas como Sony, Banco Real, Yahoo! Brasil, Locaweb. René tem como foco a criação, implantação e manutenção de projetos, formação de comunidades e brand experience integrada.

Artigos em Destaque

WhatsApp chat