“E eu me pergunto se realmente observamos, refletimos, concluímos algumas coisas, disso que acontece e tanto nos diz respeito, como o pão, o café, o salário, a vida. Lutamos pela honra, pela melhor administração, pela segurança, pela decência, pela confiança que precisamos depositar nos líderes, nos governantes, nos nossos representantes? Ou nos entregamos ao fluxo das ondas, interessados muito mais no novo celular, no iPod, no iPad, no tablet, na troca da geladeira, na TV nova, no carro dos sonhos, pago em oitenta prestações impossíveis?”

Lya Luft, escritora e articulista da Veja, em seu ótimo artigo da edição 2222, resume um pouco do que eu sinto sobre o tipo de cidadão que nos tornamos. Passamos a vida ligados a organizações que, com incríveis campanhas publicitárias, definem as escolhas que deveriam ser nossas, porque deixamos. Juntamente com o governo e as religiões, as empresas dizem o que devemos ou podemos fazer. Assim vivemos em uma sociedade baseada na tríade tecnologia, consumo e lucro que, só há bem pouco tempo, começa a se sensibilizar de forma mais consistente com questões ecológicas (em que o ser humano está inserido) , com nossa responsabilidade social e aspectos comportamentais, fruto do auto-conhecimento. A ciência começa a comprovar finalmente o efeito da fé, do stress, das relações pessoais e da mente sobre o nosso organismo, e isso muda todos os paradigmas científicos.

[CORTAR]Neste contexto, a educação tem papel fundamental, pois é capaz de transformar a sociedade e a mudar a história. A dinâmica e a velocidade cada vez maior das mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas não se comparam ao passado, quando qualquer mudança significativa exigia o tempo de uma geração para ocorrer. Hoje, ocorrem em minutos e são imprevisíveis. Trata-se da “era da incerteza” ou “era da descontinuidade”, como chamou Peter Drucker.

No Brasil, a ampla e desenfreada oferta de cursos de nível superior gera a predominância de critérios econômicos e utilitaristas. Econômicos, pois as universidades particulares hoje são empresas muito bem geridas, cujos resultados estão pautados no lucro e na força da marca. Utilitaristas, pois seus cursos atendem menos a objetivos acadêmicos, científicos e de pesquisa, para apenas formar profissionais para o mercado de trabalho. Para atender a estes critérios, a educação no ensino superior se limita muitas vezes à distribuição de conteúdos, logicamente estruturados, em um processo centrado no eixo da transmissão-assimilação de informações, do professor para o aluno. Especialmente em cursos de curta graduação, é incomum encontrarmos uma aula diferente da tradicional. A consequência é o pouco interesse dos alunos pela pesquisa e aprofundamento dos temas, a ausência do debate, minimizando a possibilidade de aprendizado entre os alunos, uns com os outros, e todos com o mundo. Quando estes estudantes saem da universidade, o que vemos são profissionais no mercado de trabalho esperando que o “conteúdo” seja passado pelo “chefe” para ele reproduzir. A universidade não está formando seres capazes de questionar, criar algo novo, se comprometer com o processo e com o resultado, sem a necessidade de monitoramento ou pontos positivos que, no mundo corporativo foram renomeados como bônus? Aqueles alunos que só se moviam por nota hoje são os profissionais que só se movem por bônus adicionais? A pergunta não é “o que eu posso aprender com isso?”, mas o surrado “o que eu ganho com isso?”. Um professor recentemente me perguntou quanto ele ganharia para compartilhar uma atividade no site de compartilhamento, criado pela Companhia de Idiomas. Um ambiente que recebe as atividades desenvolvidas pelos professores, proporcionando mais qualidade às aulas e menos tempo de preparo, pois cada professor pode postar uma atividade e ter acesso a várias! Não seria um exemplo do “o que eu ganho com isso?” Como contraponto, a professora Carolina Saotome abriu um espaço para compartilhar experiências com os professores, no Facebook. E, cada vez mais, professores se interessam em participar dos nossos workshops, que estão lotando, para refletir sobre o ensino de idiomas, com seus pares. Bons exemplos, provando que ainda estamos cercados de excelentes profissionais, pessoas, cidadãos. Ainda há esperança, Lya Luft!

Quero agradecer a todos os leitores do blog da Companhia de Idiomas, por trocarem ideias comigo pessoalmente, por email, skype, Facebook ou pelo próprio blog.

Rosangela de Fátima Souza (Rose) é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas, tradutora-intérprete, especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e aluna do curso de Docência de Nível Superior da FGV.

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