“E aí, como vai a família?”   “Tudo bem!” Perguntamos e respondemos sem pensar.  Que bom, porque se parássemos para refletir sobre todas as disfunções nos relacionamentos com quem amamos, talvez a resposta não fosse sempre tudo bem. De tempos em tempos proponho essa paradinha para entender se o que somos hoje é fruto da dinâmica familiar, da nossa personalidade ou de algum outro fator.  E tudo dá para mudar, se quisermos.


A maturidade não pode nos deixar profundos (e chatos) demais. Mas por outro lado, gente velha e superficial é triste, parece que os obstáculos, os tombos e as alegrias não ensinaram nada.Tema de hoje: muitos de nós fomos criados em famílias que não sabiam lidar com o conflito, ou até lidar com opiniões diferentes. A harmonia estava na conformidade, na obediência.  Foi assim com você?
 

Quando crianças, víamos nossas mães concordarem com seus maridos ou fazerem as vontades dos filhos tiranos para não brigar. Algumas foram ficando sem vontades, sem energia, sem voz, foram encolhendo até desaparecerem.  E elas (ou eles) nos educaram para fazer o mesmo. E como o medo faz escolhas onde o risco é menor, aprendemos.
 

Ou víamos nossos pais brigarem por qualquer coisa, e também nós brigávamos com os irmãos e pais por qualquer coisa. E hoje vemos que tudo poderia ter sido resolvido com conversa e até com bom humor. Era uma gritaria por tão pouco!  E na verdade a briga não era por causa daquela questão, mas por causa das carências escondidas, frustrações guardadas que vinham à tona com energia em excesso.
 

De um jeito ou de outro, começamos a ler o mundo assim: é melhor ficar em silêncio, é mais seguro concordar, é mais inteligente não se mostrar senão vai virar briga, e eu não gosto de briga!
 

O que somos em nossas empresas é simplesmente… o que somos. Pode até ser que na empresa a gente reaja com mais paciência, por já entendermos que os riscos de sermos demitidos são maiores e mais frequentes que os riscos de sermos expulsos da família – lá, o que você faz de ruim pode virar mágoa, mas quase sempre há o perdão. Na empresa, o que você faz pode ocasionar a perda daquela promoção, um rótulo permanente por causa de uma única reação, ou você até pode ser demitido mesmo.
 

Na nossa sociedade capitalista, infelizmente parece que na empresa o castigo é mais alto.  Não é, porque em longo prazo, a família disfuncional causa todo tipo de infelicidade e doenças (físicas e da alma).  A empresa causa algumas.  Mas como estamos aqui para falar da nossa atitude nas empresas, vamos pensar um pouco sobre as consequências deste medo do conflito em nosso ambiente de trabalho.
 

“Eu evito o conflito. Nem sempre tenho coragem de expressar minha discordância, acho que dá muito trabalho convencer os outros sobre pontos de vista diferentes e prefiro ficar em silêncio e concordar, afinal meus chefes têm mais experiência que eu, devem saber o que estão fazendo. Se der errado, a ideia foi deles.”

“Eu, hein?  Prefiro não falar nada, porque vai que a pessoa fica nervosa! Depois comento minha opinião só com meus colegas mesmo.”


Vamos voltar às famílias citadas no início deste artigo:  entre o silêncio da primeira – que nos reduz a nada –  e a gritaria da segunda, que nos adoece,  existe uma terceira via: a da assertividade,  que é basicamente falar o que precisa ser falado, sem a intenção de magoar, com tranquilidade e com amor.  É também saber a hora de falar, e talvez optar por ir falando aos poucos, e não despejar a discordância sobre tudo, só porque tivemos coragem naquele momento.
 

E vale sempre uma reflexão sobre o tema recorrente da discordância. É sempre sobre você? Cuidado para não virar defensor de causa própria e começar a questionar só o que não considera justo para você, seu bem estar, suas metas, seu salário.  Não se torne um profissional que parece estar ali só por si mesmo, e se cala justo no momento em que a empresa precisa de mais cérebros funcionando para resolver um desafio.
 

Mas não tem nenhum momento em que é preciso silenciar?


Sim.
 

Na hora errada.  Mas fale em outro momento, não deixe os dias passarem para você se esquecer, pois é isso que alimenta o monstrinho.   E não se esqueça de que se for em uma reunião em que as pessoas estão tentando chegar a uma solução, deixar para falar depois quase sempre é sinal de covardia – você perderá o timing. Ser profissional não é para os fracos.
 

Quando você já tiver desistido da pessoa ou da empresa e for só uma questão de tempo para sair daquela relação. Aí não vale mais a pena. Mas saia logo, não falar e ficar é trair o outro e a você mesmo.
 

Quando você estiver ajudando a melhorar um determinado aspecto, e não quiser trazer outro à tona, para não desfocar, ou para não parecer que você só vê o lado ruim, para não desvalorizar o que está sendo trabalhado, pelo excesso. Se você abordar mais de dois aspectos diferentes, seu gestor já não vai ouvir muita coisa, vai concluir que você só sabe reclamar.  Um ponto por vez, costuma ser mais eficaz.
 

Como diz a música da banda Suricato:  “descobri que tudo o que aprendi foi errando feio”.

Estes são alguns dos aprendizados que tenho colhido pelo caminho, mas ainda erro feio com o silêncio e com a fala.  Acho que hoje percebo quando erro mais rapidamente.   E você?

“O caminho que desce e o caminho que sobe são os mesmos.” Heráclito -576 -480

Fonte: Portal Catho – Carreira & Sucesso e Rosangela Souza

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto.Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA.
Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e aluna do Pós-MBA da FIA/USP. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso.
 

 

Artigos em Destaque

WhatsApp chat