“O inferno são os outros” é uma das frases célebres de Sartre, filósofo e escritor francês. Sempre achei que entendia mais ou menos o que Sartre queria dizer com essa frase. Mas descobri há algum tempo que não era bem o que eu imaginava, e agora tenho duas interpretações – a dele e a minha. Não posso esquecer de nenhuma das duas, pois são lições que preciso aplicar na vida pessoal e na profissional (que, como sempre, andam juntas).

Depois de ler este texto, é possível que você também tenha novas interpretações. Pessoas como Sartre falam coisas que carregam ensinamentos embutidos e infinitos.

Vamos para a interpretação de Sartre primeiro. Para isso, temos de conhecer outro pensamento dele:

“Estamos condenados a ser livres”

A liberdade como condenação é uma visão interessante. Estamos condenados a ser livres? A tomar decisões e a assumir os riscos. Para não assumi-los, terceirizamos as decisões, deixando alguém ter o controle da nossa vida. Mais cômodo. Se as decisões têm consequências, as indecisões têm mais ainda.

E terceirizamos também as indecisões. Percebemos que há algo muito errado, sabemos que precisamos mudar, mas justificamos nossa covardia ou preguiça de fazer o que precisa ser feito, dizendo que não somos livres, que não há o que ser feito. Dizemos que justo agora tem algo ou alguém que coíbe em nós a mudança. Dá trabalho encontrar um jeito de mudar, e ao mesmo tempo não ferir quem a gente ama, conseguindo ouvir o que grita nosso coração e que nem sempre estamos abertos para ouvir.

Há quem queira se divorciar para ser feliz finalmente, mas não o faz por causa dos filhos. Como se um ambiente nocivo de um casamento infeliz fosse melhor do que dois ambientes com pais felizes e separados. Há quem queira buscar outro trabalho, porque este o adoece física e mentalmente – mas não o faz porque ele pode ser promovido daqui a cinco anos. Há quem queira mudar de cidade, mas não o faz porque a família mora perto – família que ele nem vê muito ou nem gosta tanto assim. Há quem queira economizar para poder viajar, mas não o faz porque tem uma casa grande que dá muitas despesas.

“E o inferno são os outros”

Às vezes nos paralisamos e não mudamos o que queremos, perpetuando a infelicidade de cada dia. Aí vemos que os outros tiveram coragem de fazer o que a gente só ensaiava e justificava: “quero muuuuito, mas agora é impossível” – e isso nos faz sentir uma profunda decepção com a gente mesmo. Inferno. Inveja de quem fez. Inferno. Mas pra ele é mais fácil porque… Inferno.

Quando mudamos e o resultado não é o que esperávamos, a decepção é ainda maior. Por que comigo? Por que fui mexer em time que estava ganhando? Estava ganhando mesmo? Seria melhor ter ficado onde estava. Seria mesmo? Inferno.

Quando mudamos e ficamos felizes – com a coragem de ter feito e também com o resultado, aí vem a arrogância de achar que nossa escolha é a única boa e inteligente. O inferno são os outros, porque o inferno é relativizar nossa inércia e nossas ações, sempre nos comparando, sempre nos sentindo piores ou melhores que alguém.

O céu, por contraste, deve ser o uso da liberdade de mudar apenas pelo prazer da descoberta do novo, pelo aprendizado, pela evolução, por oportunidades de felicidade nunca antes desejadas. O céu deve ser quando sentimos profundamente que nunca perdemos: ou ganhamos, ou aprendemos. É tudo sobre nossa evolução, não sobre conquistas.

Mas eu achava que Sartre estava querendo dizer outra coisa. Pensava que “o inferno são os outros” era sobre nossa mania de usar nossas capacidades cognitivas para julgar qualquer pessoa diferente de nós, como uma espécie de vício da autoafirmação. Sabe quando a dopamina é disparada na nossa corrente sanguínea quando criticamos alguém? Justificamos com palavras bonitas e pensamento inteligente, dizemos que somos melhores que a pessoa julgada, e nos sentimos… “felizes” (?). Isso vicia. Aí começamos a achar que todos são o inferno, para podermos experimentar fragmentos de céu a cada crítica. Que inferno é ter um vício. Que inferno é se comparar.

No fundo, é tudo sobre comparação, competição, sobre o inferno de se perceber mais ou menos que alguém, oscilando entre os extremos da vaidade e do menosprezo a si mesmo. Seguimos aprendendo – com Sartre, com o mundo e com o professor que mora em nós.

 

Artigo escrito por Rosangela Souza e publicado no portal Carreira & Sucesso da Catho. Editado para o blog da Companhia de Idiomas.

Rosangela Souza (ou Rose Souza) é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas. Graduada em Letras/Tradução/Interpretação pela Unibero, Especialista em Gestão Empresarial, MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP, além de cursos livres de Business English nos EUA. Quando morava em São Paulo, foi professora na Pós Graduação ADM da FGV. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista dos portais Catho, RH.com, MundoRH, AboutMe e Exame.com. Desde 2016, escolheu administrar a Companhia de Idiomas à distância e morar em Canela/RS, aquela cidadezinha ao lado de Gramado =) . Quer falar com ela? rose@companhiadeidiomas.com.br ou pelo Skype rose.f.souza

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