Então, parece que tudo é uma questão de referência, ou do nosso olhar.  Ouvi recentemente que um dos “órgãos” mais doentes no nosso corpo é o nosso olhar. Ok, não é um órgão, mas é interessante pensar que precisamos curar permanentemente nosso olhar, para enxergar e valorizar o que é bom (e até o bem contido no mal). E também enxergar o que não nos faz felizes, para ter coragem de mudar.  Como a rotina nos cega, nos deixa apáticos e um tanto anestesiados, o trabalho é árduo e diário.
 

Dick Costolo, CEO do Twitter, diz que fora do Vale do Silício os empreendedores que “não dão certo” são rotulados de fracassados.  No Vale, ele diz que não há o estigma da falha, pois é preciso permitir que empreendedores errem bastante, para um dia acertarem em cheio.  O medo de errar faz escolhas onde o risco é menor, e isso é um passo para a mediocridade.
 

E nas nossas empresas?  Sabemos que somos mesmo uma sociedade obcecada por amar e ser amada, que colocamos óculos cinza e cor de rosa conforme nossas crenças e conveniências, e que temos de neutralizar nosso medo para não nos tornar medíocres.   Mas o que o elogio tem a ver com isso?
 

Minha pergunta de hoje é : “quando é que optamos por não elogiar alguém, mesmo sabendo que aquela pessoa merece reconhecimento no momento?”
 

Listei hoje quatro razões, e provavelmente há dezenas.
 

Quando temos alguma mágoa – se ele me magoou, quero que ele sofra. Criamos o ciclo vicioso e só o quebramos com o tão necessário perdão. Pouco  falamos de perdão nas relações profissionais, mas é ali, na empresa, que temos mais chances de exercitá-lo, impedindo que comportamentos nocivos (e sutis) se instalem por conta das pequenas mágoas diárias.  Você é capaz de ver algo bom,  e ainda dizer o que viu, para alguém que magoou você?   Se não for, está na hora de exercitar, senão você pode até terminar sua carreira no topo, se for genial como Steve Jobs, mas terminará sozinho.
 

Quando temos inveja – sabe quando notamos que alguém é melhor que nós em alguma coisa e isso nos incomoda? Aí tentamos diminuir o brilho da pessoa com comentários sutilmente negativos, para nos sentirmos um pouco melhor? Você pode dizer que nunca faz isso, mas pense direito.  Há mães que, ao perceberem que o marido ama demais a filhinha, tem um certo prazer em relatar o que ela aprontou no dia, só para que ele saiba que ela não é assim tão perfeita.  Há funcionários que capricham no julgamento daqueles considerados talentos na empresa. Irmãos que competem estão sempre procurando, encontrando e divulgando as falhas do outro.  Faz sentido para você?  Inveja não tem a ver apenas com bens materiais – você pode querer ser tão amado por todos quanto seu colega. E como não consegue…
 

Quando não queremos ser “puxa sacos” – não sei porque temos este hábito de não elogiar professores, chefes, pais. A luta de classes ainda faz parte de nosso padrão mental?  Ainda nos vemos como representantes da classe trabalhadora, humilhada e marginalizada? Ainda não faz sentido elogiar a elite, a classe dominante, mesmo que existam pessoas do bem, competentes e admiráveis lá?   Este preconceito pode destruir uma carreira.  Se quer ser um excelente profissional, não se veja como sócio do clube de golfe, nem como mano do gueto. E não enxergue as pessoas com estes rótulos. Crie laços com pessoas – de faxineiros a presidentes. Elogie quem merece elogio, sem medo de parecer manipulador ou puxa saco, e sem ser.
 

Quando achamos que o outro pode querer mais de nós – às vezes não elogiamos um assistente, por exemplo, porque  isso pode “valorizar demais o passe dele”.  Ele pode solicitar uma promoção, um aumento de salário ou até sair da nossa empresa. O problema é que a falta de reconhecimento gera distanciamento, desmotivação e aí… a saída é mais provável ainda.

E quando somos os líderes e elogiamos, reconhecemos, celebramos as pequenas vitórias, mas percebemos que a pessoa continua desmotivada no trabalho, reclamando de tudo ou meio distante e nada apaixonada?
 

Nunca é demais tentar observar, conversar, perguntar, e descobrir como tocar aquela pessoa, como fazer com que ela veja sentido no trabalho que desenvolve e se sinta feliz por estar ali.
 

Se não der certo, lembre-se da pesquisa que diz que felicidade é 50% genética (talvez o olhar herdado dos pais) , 10% proveniente de componentes externos (dinheiro, carro novo, status, amigos, empresa, etc) e 40% é mesmo sua vontade de ser feliz, por causa e apesar das coisas da vida.

Fonte: O elogio | Portal Carreira & Sucesso e Rosangela Souza.

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto.
Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA.
Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e aluna do Pós-MBA da FIA/USP. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso.

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