Primeiro… o que é isso mesmo?
 

Para explicar,  vou citar uma famosa Fábula de Esopo, super antiga e bem curtinha, chamada “A Raposa e as Uvas“.
 

Morta de fome, uma raposa foi até um vinhedo, sabendo que ia encontrar muita uva.  A safra tinha sido excelente. Ao ver a parreira carregada de cachos enormes, a raposa lambeu os beiços. Só que sua alegria durou pouco: por mais que tentasse, não conseguia alcançar as uvas. Por fim, cansada de tantos esforços inúteis, resolveu ir embora, dizendo:  “ Por mim, quem quiser essas uvas pode levar. Estão verdes, estão azedas, não me servem. Se alguém me desse  essas uvas eu não comeria.



 

O dinheiro, os bens de consumo, o desapego aos bens materiais, o poder, as viagens, uma profissão, ser solteiro, ser casado, ter muitos filhos, ter filho único, cuidar da saúde, não cuidar, estudar muito ou não, cuidar da carreira ou não, trabalhar 14 horas por dia ou 8  – tudo isso são escolhas (as uvas) que podem ou não estar alinhadas com sua essência.
 

Muitos de nós, quando constatamos ao longo do tempo que não vamos conseguir algo que no fundo desejamos, mudamos o discurso, dizendo que “não queríamos mesmo” e justificamos racionalmente nossa escolha, geralmente,  colocando a responsabilidade nos outros, ou no cenário.
 

Parece um mecanismo de proteção, desencadeado naturalmente, para minimizar  nossas frustrações, e diminuir o sentido de perda.  

Os estudiosos do assunto dizem que quando a realidade não se adequa àquilo que desejamos, entramos em dissonância cognitiva e temos uma sensação de desconforto e de mal-estar.  Nosso cérebro começa então a buscar alternativas que minimizem esta sensação.
 

Por exemplo, alguém pode achar horrível a corrupção na política, mas, em sua empresa, admite um pagamento de propina para reduzir seus custos, justificando que se não fizesse isso não sobreviveria. 

A justificativa diminui o senso de culpa causado pela contradição (dissonância).
 

Também usamos outro artifício para diminuir o mal estar:  desqualificamos e criticamos o ganho ou a escolha do outro.
 

A mulher que não trabalha desqualificando a escolha da outra, que trabalha, sugerindo sutilmente que ela não é tão boa mãe ou esposa. No fundo, será que ela gostaria de ter uma carreira também?

Do outro lado, a mulher que trabalha desqualificando  a que não trabalha, sugerindo que ela ficou desatualizada e pode não ser uma mulher tão interessante quanto as atuantes no mercado de trabalho.

Será que ela apenas gostaria de ter mais tempo para si mesma e para a família?
 

Será que quando vejo alguém bem sucedido na capa da revista e, intimamente, penso que ele não é feliz, não estou tentando disfarçar alguma frustração minha? Felicidade não é proporcional à conta bancária, mas também não é inversamente proporcional.  

E se fico até um pouquinho satisfeito quando ele vai à falência, aí está a prova da dissonância. Voltaire já dizia: “Sem ter sido capaz de ter sucesso no mundo, se vingou falando mal a respeito dele.


O que acontece é que muitos de nós cristalizamos estes comportamentos de crítica a pessoas, coisas e situações que,  no fundo, gostaríamos  de ser, ter ou vivenciar – e  não conseguimos.

Aí ressaltamos o negativo, já que tudo tem os dois lados.   E lá vem Voltaire de novo: “A chance de fazer o mal se apresenta cem vezes por dia; a de fazer o bem, uma vez ao ano”. Concordo com a primeira parte do que disse Voltaire.
 

A dissonância cognitiva necessita de um esforço enorme para termos coerência entre nossas convicções e nossas ações, contraditórias.

Quero uma coisa, mas falo que quero outra, assim, se eu não conseguir o que quero, ninguém saberá do meu insucesso. Sim, nós somos a raposa.
 

E qual a consequência de querer, mas dizer que não quer, e se comportar como se não ligasse?
 

Uma consequência boa e outra ruim, só para resumir, porque há várias:
 

A boa:  você parece estar bem, porque diz isso todos os dias para você mesmo e para os outros; você parece de bem com as escolhas que fez, tanto é que julga todas as outras, diferentes da sua.
 

A ruim: como você diz e faz uma coisa mas sente outra, sua mente fica meio confusa e você acaba não correndo muito atrás do que realmente quer.  Sem correr atrás, você nunca consegue. E continua dizendo que não tem importância, que nem queria mesmo, como a raposa.
 

Com o tempo, nossas ações vão ficando tão diferentes da nossa essência e do que realmente queremos, que nos distanciamos de nós mesmos, nos tornamos seres voltados para o que é exterior, vamos perdendo o sentido da nossa vida.

Vivemos um conflito permanente, e aí podemos adoecer ou envelhecer bem amargurados…
 

Quanto mais relações dissonantes tivermos com o mundo, menos felizes seremos. Quanto mais nosso discurso e ações estiverem alinhados com nossa essência e com nossos talentos, mais sentido veremos nisso tudo.

Fonte: Catho e Rosangela Souza.

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Rosangela Souza é fundadora  e sócia-diretora das empresas Companhia de Idiomas e ProfCerto. Graduada em Letras e Tradução/Interpretação pela Unibero, Business English na Philadelphia, USA.  Especialista em Gestão Empresarial com MBA pela FGV e aluna do Pós-MBA da FIA/USP. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs.  Colunista do portal da Catho Carreira & Sucesso. 

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