Santo Agostinho dizia: “Me sinto tão livre, que posso fazer até o que eu não quero”.

Liberdade plena deve ser isso mesmo. Posso fazer algo por alguém que eu amo, só porque entendo que aquilo vai ser bom para ele/ela – me permitindo anular a minha vontade, naquele momento. Posso não fazer e sempre considerar também os meus desejos. Posso fazer por quem eu nem conheço, ou só por quem me ama. Posso não fazer por quem eu acho que não merece. Posso fazer até o que eu não quero. Isso é liberdade.

Recentemente tomei uma decisão muito muito difícil. Eu e meu marido doamos o Theo, nosso lindo cachorrinho. Sim, aquele que amamos tanto. Eu permiti que um ser que eu amo saísse da minha vida, para que ele fosse feliz do jeito que sabemos que ele merece ser. E pelos vídeos, fotos e percepção dos novos donos apaixonados, ele está muito feliz brincando em um lindo gramado, com dois gatos e dois cachorros – além de dormirem todos juntos, na cama dos donos. Coisas que não queremos para nossa vida neste momento.

Tentamos de tudo: adestrador, veterinários, tutoriais e livros. Mas ele não estava feliz. O problema não era lidar com a consequência, mas sim não saber eliminar a causa.

Dessa vez, parece estar na hora de exercer o amor mais sublime – o que liberta. Hora de permitir que este amor machuque nosso coração – especialmente quando você ainda chora, e o outro só vê alegria na nova vida.

De alguma forma, lembra um pouco o sentimento de despedida de um filho que vai morar no exterior. Quem ama liberta.

Lembra também um divórcio, quando ambos sabem que serão mais felizes separados, e insistem em ficar juntos – para tiranizar às vezes, para reclamar muito, dar afeto quando convém, reagir com pequenas vinganças ao se perceber que o outro pode ficar feliz sozinho. E quando vem a coragem de tentar a separação, e se percebe que finalmente o outro está feliz, há alegria pelas novas possibilidades, dor, alívio, vazio, liberdade, ciúme, culpa, orgulho pela coragem, entendimento de que não existe felicidade plena – sempre há escolha e renúncia.

 

Mas o que tudo isso tem a ver com as organizações?

A compreensão profunda das dores  humanas – as que já sentimos e as que antes ridicularizávamos – nos torna líderes sábios. E, independentemente do tipo de trabalho que temos, também fazemos escolhas e tomamos decisões difíceis nas empresas.

Já senti um pouco de tudo isso que você leu, quando tive que demitir pessoas muito queridas, mas que se tornaram incompatíveis com a empresa. Quase todas estavam infelizes, mas não tinham coragem de tomar a decisão de sair.

Senti também quando tive de deixar um trabalho que eu amava, como amo ser sócia da Companhia de Idiomas: o de professora na pós graduação das conveniadas FGV. Era incompatível com a decisão de mudar de estado.

Sei de muitos funcionários que passaram exatamente por este turbilhão emocional dias antes de falarem comigo para pedir demissão.

Em outras empresas, não é fácil decidir se se deve aceitar uma ótima promoção que vai comprometer a qualidade de vida. Mudar de país, deixando gente amada. Deixar um emprego bem remunerado mas que mata aos poucos.

Se é ruim depois, a angústia que antecede é pior.

Ficar infeliz? Tentar suportar, olhando só para o que tem de bom? Decidir agir, com mais dúvidas do que certezas? Se arrepender por ter ido? Se arrepender por ter ficado?

Exercer a liberdade que se tem é muito bom, mas não é nada fácil.

O consolo: na vida o mais importante não é o saber  – até porque ele é cheio de armadilhas de vaidade e arrogância. É o buscar, o se sentir frágil em meio a tantos saberes, tantos julgamentos, tantas opiniões “certas”. É o entender que não há uma única verdade, mas percepções baseadas na história individual e entrelaçada de cada um.

Que a vida nos ensine esse tal amor que liberta, nos mostrando também os caminhos do desapego.

 

Escrito por Rosangela Souza e publicado no portal MundoRH. Editado para o blog da Companhia de Idiomas.

Rosangela Souza (ou Rose Souza) é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas. Graduada em Letras/Tradução/Interpretação pela Unibero, Especialista em Gestão Empresarial, MBA pela FGV e PÓSMBA pela FIA/FEA/USP, além de cursos livres de Business English nos EUA. Quando morava em São Paulo, foi professora na Pós Graduação ADM da FGV. Desenvolveu projetos acadêmicos sobre segmento de idiomas, planejamento estratégico e indicadores de desempenho para MPMEs. Colunista dos portais Catho, RH.com, MundoRH, AboutMe e Exame.com. Desde 2016, escolheu administrar a Companhia de Idiomas à distância e morar em Canela/RS, aquela cidadezinha ao lado de Gramado =) . Quer falar com ela? rose@companhiadeidiomas.com.br ou pelo Skype rose.f.souza

Artigos em Destaque

WhatsApp chat