O executivo que é enviado a outro país pode viver uma experiência fascinante ou um pesadelo. O sucesso depende dele e do apoio da empresa e da família.


A francesa Catherine Mimy(esq.) e a professora Ana Paula de Almeida:
prioridade é aprender a língua(Paulo Pampolin/Digna Imagem)

"Hoje, dominar o inglês em terras brasileiras não é suficiente para quem vem de fora. Falar o português é essencial para os executivos."

"Há dois grupos de expatriados: os que preferem ficar sempre com os conterrâneos e os que querem fazer amigos brasileiros."

Um vai-e-vem danado.Nas grandes empresas, a migração de executivos, principalmente os que ocupam cargos altos sempre foi comum. Brasileiros vão para o exterior e estrangeiros chegam ao Brasil a todo momento. Segundo dados do Ministério do Trabalho, de janeiro a maio deste ano, 207 altos executivos estrangeiros vieram para o Brasil ocupar cargos de dirigentes de empresas.

"Antigamente, eles vinham para ficar cinco anos. Agora, ficam, no máximo, dois. Hoje, a rotatividade é maior, é um entra e sai de gente", afirma a psicóloga Judith Vero, sócia da consultoria Self, de São Paulo, especializada em atender os expatriados.

O processo de transferência, em geral, representa um novo degrau na ascensão profissional do executivo, mas é recheado de dúvidas e temores. Por esse motivo, as empresas têm departamentos para atender apenas os expatriados e, quando não têm, contratam os serviços de terceiros especializados no assunto. Os profissionais são verdadeiras babás. Ajudam na locação de imóveis, na procura de escola para os filhos e até apontam qual lavanderia é a mais indicada à família. Motorola, Santander e Fiat estão entre as companhias que têm programas específicos para os executivos estrangeiros.

Uma das principais dificuldades dos profissionais "importados" é o idioma. Dominar o inglês é importante, mas para entender as sutilezas do país, é preciso aprender a língua local. Judith conta que atendeu um cliente desesperado, que não conseguia aprender a falar português. Os filhos e a mulher já falavam, só ele que não. Judith descobriu logo o motivo. "Ele tinha um passado complicado, já tinha morado em outros países, falava diversas línguas, simplesmente, não cabia mais nada de novo na cabeça dele", conta a psicóloga. Para amenizar o problema, ele fez sessões de análise.

Outra questão importante é a família. Ana Cristina Braga, professora da EAESP, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV, Fundação Getúlio Vargas, diz que as crianças têm facilidade para se adaptar, por causa da escola, mas os adolescentes e as mulheres são mais resistentes.

Os primeiros porque já têm "turma" no país de origem. E aí os pais têm de ser muito convincentes. E as mulheres porque, geralmente, mudaram em função do plano profissional do marido.

Judith explica que, quando elas têm um trabalho, fica mais fácil a adaptação, mas isso nem sempre acontece. Então, precisam de atenção especial da empresa. Recentemente, Judith e sua sócia, Regina, foram até o Canadá atender cinco famílias de expatriados brasileiros contratados por uma empresa e que queriam voltar imediatamente para o Brasil principalmente, por causa, das mulheres.

Elas passaram uma semana em terras canadenses e fizeram um diagnóstico surpreendente: um do motivos do descontentamento e da depressão das mulheres era o fato de a família ter um único carro. "O pessoal tinha contrato de trabalho de dois anos e, por isso, não tinha conta em banco (as leis do Canadá só abrem conta para quem tem contrato de três anos). Sem conta, não conseguiam comprar o segundo carro. Então, o marido saía para o trabalho com o automóvel e a mulher ficava em casa, imóvel. Não podia buscar as crianças na escola, fazer compras, pois o gelo ia até o joelho", conta.

A solução proposta pelas profissionais foi que a empresa oferecesse uma linha de crédito para os expatriados comprarem o segundo carro. E que os próximos contratos fossem de três anos, para evitar esse problema. Outra sugestão: ter pessoas falando português para pegar as mulheres pela mão e levá-las até o supermercado, a farmácia mais próxima. "É preciso mostrar para quem chega como o país funciona", diz Judith.

Jeitinho – Para evitar transtornos, os executivos estrangeiros no Brasil recebem aulas práticas sobre o País. Judith, por exemplo, reúne grupos e, durante um dia todo, explica como funcionam o sistema bancário brasileiro, os restaurantes, os hospitais, o transporte, os órgãos públicos etc. A locação do imóvel também é feita por corretores conhecidos. "Por ser muito burocrático, a gente procura pessoas que já conhecem os hábitos estrangeiros e simplificam as coisas", diz ela.

Ligia Crispino, da Companhia de Idiomas, empresa especializada em ensinar português para expatriados, diz que a escola também tem um programa para acompanhar as pessoas aos locais que elas têm de ir, como lavanderia, livraria etc.

"A idéia é mostra o jeitinho brasileiro de atender os clientes. Assim, eles não correm o risco de serem pegos de surpresa e cometerem gafes", afirma.

Grupos – No Brasil, os estrangeiros dividem-se em dois grupos, explicam os especialistas. Existem os que se fecham e ficam rodeados de conterrâneos e os que querem evitar o contato com a cultura que deixaram para trás e entram de cabeça no outro país. Judith, autora do livro Alma Estrangeira, que trata de um grupo de húngaros no Brasil, conta que os americanos, por exemplo, gostam de morar em condomínios onde habitam outros americanos.

"É uma forma de preservar a cultura e, de alguma forma, se proteger do novo", afirma ela. Alemães também têm esse hábito. Ela conta que fez um trabalho com um alemão que estava há 20 anos no Brasil e dizia, sempre que estava "de passagem".

A francesa Catherine Mimy se enquadra no segundo grupo. Ela quer se enturmar, fazer amigos brasileiros, por isso está empenhada em aprender a falar português. Catherine faz aulas três vezes por semana na Companhia de Idiomas. Casada com um alto executivo de uma multinacional, ela chegou ao Brasil em julho deste ano. Ela e o marido tinham visitado o Brasil uma única vez, mas não conheciam São Paulo. "Viemos a passeio, fomos para Manaus, Brasília e Foz do Iguaçu", conta a francesa.

Para quem chegou ao País há pouco mais de dois meses, Catherine já pronuncia as palavras em português com certa facilidade e sabe responder corretamente às perguntas. "Aprender a língua é o meu primeiro objetivo. Depois, quero fazer aulas de piano", afirma ela. Para acompanhar o marido, Catherine abandonou a carreira na França, mas, diferentemente das brasileiras expatriadas, diz que não se arrepende. "As pessoas no Brasil são gentis. Isso não é comum em cidades grandes como São Paulo. Paris não é assim", diz ela.


Cláudia Marques

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